sábado, 5 de março de 2022

O legado de Bauman

 





 

Resumo: Diante do inefável legado de Zygmunt Bauman para a sociologia e filosofia, há também um legado para as Ciências Jurídicas, onde a dinâmica e a fluidez exigem da doutrina e da jurisprudência novas habilidades para se manterem eficazes e coerentes.

Palavras-Chave: Modernidade Líquida. Direito. Doutrina. Jurisprudência. Sociologia. Filosofia.

 

 

Zygmunt Bauman (1927-2017) foi sociólogo, filósofo, professor e escritor polonês, foi uma das vozes mais contundentes da sociedade contemporânea e criador da expressão "modernidade líquida" para classificar a intensa fluidez do mundo atual onde os indivíduos não possuem mais padrão de referência.

Nasceu na Polônia, na cidade de Poznan, filho de judeus, e em 1939, junto com sua família escapou da invasão das tropas nazistas na Polônia, tendo se refugiado na União Soviética (URSS). Alistou-se no exército polonês e

atuou no front soviética. Em 1940 ingressou no Partido Operário Unificado, partido comunista da Polônia. E, em 1945 entrou para o Serviço de Inteligência Militar, onde permaneceu durante três anos.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, voltou para Varsóvia. E, conciliou sua carreira militar com os estudos universitários e também com sua militância partidária. Estudou Sociologia na Academia de Política e Ciências Sociais de Varsóvia.

Ingressou no mestrado na Universidade de Varsóvia. E, em 1950 deixou o Partido Operário. E, em 1953 foi expulso do Exército da Polônia. E, em 1954 concluiu o mestrado e, se tornou professor assistente de Sociologia na mesma Universidade. Durante muitos anos se manteve próximo à ortodoxia marxista, porém, depois passou a fazer severas críticas ao governo comunista da Polônia, o que resultou em sérias perseguições durante quinze anos.

E, em março de 1968, em protestos de professores, estudantes e artistas que lutavam contra a censura do regime polonês, que culminou com expurgo antissemita e, assim, obrigou a muitos poloneses de origem judaica a deixarem o país. E, assim, foi exilado em Israel, onde lecionou na Universidade de Tel-Aviv. Em 1971 foi convidado para lecionar Sociologia na Universidade de Leeds, na Inglaterra, onde também dirigiu o departamento de sociologia da Universidade até sua aposentadoria em 1990.

Durante mais de meio século foi um dos mais influentes observadores da realidade social e política, apesar de ser descrito como pessimista, endossou o coro dos que criticam a pós-modernidade, em busca de causas do processo social perverso, no mundo das ideias do pensamento anticapitalista.

Em 2000 criou o termo "modernidade líquida" para descrever as transformações do mundo contemporâneo, no qual nada é sólido e tudo se dilui no ar. Sua derradeira obra é intitulada "Estranhos à Nossa Porta" observa a crise dos refugiados que batem à porta da Europa.

A modernidade líquida parte do pressuposto de que, no passado, tudo era sólido. Assim, por exemplo: uma família tinha um pai, mãe e punhado de filhos. Doravante, o mundo estaria mais líquido.

Ou pelo menos, os conceitos se tornaram mais ambíguos. E, as famílias líquidas passaram a ser aceitas com naturalidade. E, hoje em dia, até mesmo um bando de solteiros ou solteiras que moram juntos pode ser considerada como família.

Para Bauman, não apenas as famílias que estão mais líquidas, mas também o mundo. Na vida profissional, um desses sintomas é a instabilidade das carreiras.

E, essa liquidez interfere até na hora de ter medo, pois ao invés de se ter um nítido inimigo, surge o terrorismo, que pode estar e atacar em qualquer lugar.

Não é porque o sociólogo polonês passou a entender o mundo, que ele passou a concordar com tudo que vige e dinamiza-se por aí. Ao revés, tornou-se crítico do consumismo exacerbado, o sociólogo reclama que fluidez tornou mais flexíveis os valores importantes, tal como a relação humana, o respeito, o amor e  comprometimento. E, curiosamente, foi a defesa de valores sólidos que fez de Bauman um dos pensadores contemporâneos mais importantes.

Vejamos alguns de seus pensamentos, in litteris:

Conheça um pouco do pensamento de Bauman:

“O medo está lá, saturando diariamente a existência humana, enquanto a desregulamentação penetra profundamente nos seus alicerces e os bastiões de defesa da sociedade civil desabam. O medo está lá – e recorrer a seus suprimentos aparentemente inexauríveis e avidamente renovados a fim de reconstruir um capital político depauperado é uma tentação à qual muitos políticos acham difícil resistir. E a estratégia de lucrar com o medo está igualmente bem arraigada, na verdade uma tradição que remonta aos anos iniciais do ataque liberal ao Estado social.” In:  Zygmunt Bauman, em “Tempos líquidos”. [tradução Carlos Alberto Medeiros].Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 23.

“Massas cada vez maiores de pessoas desperdiçadas no equilíbrio político e social da coexistência humana planetária. A consequência da globalização do mercado financeiro e de trabalho, da modernização administrativa pelo capital, do modo de vida moderno, colaboram para os “escoadouros” humanos, excluindo os não pertencentes ao meio. […] A vida moderna produz uma “escala crescente: a população supérflua, supranumerária e irrelevante – a grande quantidade de sobras do mercado de trabalho e o refugo da economia orientada para o mercado, acima da capacidade dos dispositivos de reciclagem.”

In: Zygmunt Bauman, em “Tempos líquidos”. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 35.

“Transformações sociais, culturais e políticas associadas à passagem do estágio “sólido” para o estágio “líquido” da modernidade, o afastamento da nova elite (localmente estabelecida, mas globalmente orientada e apenas ligada de forma distante ao lugar em que se instalou) de seu antigo compromisso com a população local e a resultante brecha espiritual/ comunicacional.” In: Zygmunt Bauman, em “Tempos líquidos”. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 84.

“Pensar tira nossa mente da tarefa em curso, que requer sempre a corrida e a manutenção da velocidade. E na falta do pensamento, o patinar sobre o gelo fino que é uma fatalidade para todos os indivíduos frágeis na realidade porosa pode ser equivocadamente tomado como seu destino.” In: Zygmunt Bauman, trecho do livro “Modernidade líquida”. [tradução Plinio Dentzien]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

“Tomar distância, tomar tempo – a fim de separar o destino e a fatalidade, de emancipar o destino da fatalidade, de torná-lo livre para confrontar a fatalidade e desafiá-la: essa é a vocação da sociologia. E é o que os sociólogos pode fazer caso de esforcem consciente, deliberada e honestamente para refundir a vocação a que atendem – sua fatalidade – em seu destino.” In: Zygmunt Bauman, trecho do livro “Modernidade líquida”. [tradução Plinio Dentzien]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

 

“Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.”

In: Zygmunt Bauman, trecho do livro “Modernidade líquida”. [tradução Plinio Dentzien]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

Eis a lista de obras de Bauman já publicadas no Brasil:

 Ética pós-moderna, de Zygmunt Bauman. [tradução João Rezende Costa]. 1ª ed., São Paulo: Paulus Editora, 1997.

Modernidade e holocausto, de Zygmunt Bauman. [tradução Marcus Antunes Penchel]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

Modernidade e ambivalência, de Zygmunt Bauman. [tradução Marcus Antunes Penchel]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

Globalização: as consequências humanas, de Zygmunt Bauman. [tradução Marcus Penchel]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

O mal-estar da pós-modernidade, de Zygmunt Bauman. [tradução Cláudia Martinelli Gama e Mauro Gama]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

Em busca da política, de Zygmunt Bauman. [tradução Marcus Antunes Penchel]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

 Modernidade líquida, de Zygmunt Bauman. [tradução Plinio Dentzien]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, de Zygmunt Bauman. [tradução Plinio Dentzien]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2003.

Amor líquido, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004.

Vidas desperdiçadas, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2005.

Identidade, de Zygmunt Bauman. (Entrevista a Benedetto Vecchi). [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2005.

Europa – uma aventura inacabada, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2005.

Vida líquida, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007.

Tempos líquidos, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007.

Medo líquido, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008.

Vida para consumo, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008.

A sociedade individualizada – vidas contadas e histórias vividas, de Zygmunt Bauman. [tradução José Gradel]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008.

Confiança e medo na cidade, de Zygmunt Bauman. [tradução Eliana Aguiar]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.

A arte da vida, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.

 Capitalismo parasitário, de Zygmunt Bauman. [tradução Eliana Aguiar]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.

Legisladores e intérpretes, de Zygmunt Bauman. [tradução Renato Aguiar]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.

A ética é possível num mundo de consumidores? de Zygmunt Bauman. [tradução Alexandre Vieira Werneck]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.

Aprendendo a pensar com a sociologia, de Zygmunt Bauman e Tim May. [tradução

Alexandre Vieira Werneck]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.

A vida a crédito, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.

Bauman sobre Bauman, de Zygmunt Bauman. (Biografia) [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011.

Vida em fragmentos – sobre a ética pós-moderna, de Zygmunt Bauman.[tradução Alexandre Vieira Werneck]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011.

44 cartas do mundo líquido moderno, de Zygmunt Bauman. [tradução Vera Pereira]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011.

Ensaios sobre o conceito de cultura, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012.

A cultura no mundo líquido moderno, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012.

Isto não é um diário, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012.

Sobre a educação e juventude, de Zygmunt Bauman. (Conversas com Riccardo Mazzeo).. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2013.

Danos colaterais – desigualdades sociais numa era global, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2013.

Vigilância líquida, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

A riqueza de poucos beneficia todos nós?, de Zygmunt Bauman. [tradução Renato Aguiar]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

Para que serve a sociologia? de Zygmunt Bauman. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2015.

Estado de crise, de Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. [tradução Renato Aguiar]. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

O retorno do pêndulo: Sobre a psicanálise e o futuro do mundo líquido, de Zygmunt Bauman e Gustavo Dessal. [tradução Joana Angélica d’Avila Melo]. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

Retrotopia, de Zygmunt Bauman. [tradução Renato Aguiar]. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

A individualidade numa época de incertezas, de Zygmunt Bauman e Rein Raud. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

Nascidos em tempos líquidos: Transformações no terceiro milênio, de Zygmunt Bauman e Thomas Leoncini. [tradução Joana Angélica d’Avila Melo]. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

Mal líquido: Vivendo num mundo sem alternativas, de Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis. [tradução Carlos Alberto Medeiros]. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.

Livros sobre Zygmunt Bauman

SILVA, Paulo Fernando da. Conceito de ética na contemporaneidade segundo Bauman. São Paulo: FEU – Fundação Editora Unesp); Cultura Acadêmica, 2013.

 

Nove frases memoráveis para lembrar Zygmunt Bauman in:

El País Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/09/cultura/1483983882_874557.html Acesso em 11.01.2022.

1. “As redes sociais são uma armadilha”.

2. “O velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal desapareceu. Estamos permanentemente disponíveis, sempre no posto de trabalho”.

3. “Tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”.

4. “Esquecemos o amor, a amizade, os sentimentos, o trabalho bem-feito. O que se consome, o que se compra, são apenas sedativos morais que tranquilizam seus escrúpulos éticos”.

5. “O movimento [espanhol] de 15 de março é emocional, carece de pensamento”.

6. “Os grupos de amigos ou as comunidades de bairro não te aceitam sem dar razão, mas ser membro de um grupo no Facebook é facílimo. Você pode ter mais de 500 contatos sem sair de casa, você aperta um botão e pronto”.

7. “Foi uma catástrofe arrastar a classe média à precariedade. O conflito não é mais entre classes, é de cada um com a sociedade”.

8. “As desigualdades sempre existiram, mas de vários séculos para cá se acreditou que a educação podia restabelecer a igualdade de oportunidades. Agora, 51% dos jovens diplomados estão desempregados e aqueles que têm trabalho têm empregos muito abaixo das suas qualificações. As grandes mudanças na história nunca vieram dos pobres, mas da frustração das pessoas com grandes expectativas que nunca se cumpriram”.

9. “A possibilidade de que o Reino Unido funcione sem a Europa é mínima”, disse em 2011.

Continuando:

 

Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.

Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem.

Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar.

A vida é muito maior que a soma de seus momentos.

A incerteza foi sempre o chão familiar da escolha.

A única coisa que podemos ter certeza é a incerteza.

A paixão por se fazer notar é um exemplo importante, talvez o mais gritante, dos nossos tempos, nos quais a versão atualizada do cogito (penso) de Descartes seria: 'Sou visto (observado, notado, registrado), logo existo'.

Analisando como a modernidade líquida afeta as Ciências Jurídicas, segundo Renata Malta Vilas-Bôas, in litteris:

Se vivemos em uma modernidade líquida logo o direito acabou também sendo um “direito líquido”. Não no sentido jurídico, mas sim no sentido apontado por Bauman…

E esse direito líquido reflete-se em doutrinas superficiais, em que a reflexão jurídica fica prejudicada, a ausência de comprometimento tanto com  o estudo quanto com a responsabilidade do que se está dizendo e colocando – principalmente nas redes sociais. Surgem inúmeros “juristas de Facebook/Instagram”,  levando conceitos incompletos ou até mesmo errados para os seus seguidores.

(In: VILAS-BOAS, Renata Malta. Na Modernidade Líquida o Direito também é líquido? Disponível em: https://estadodedireito.com.br/na-modernidade-liquida-o-direito-tambem-e-liquido/ Acesso em 11.01.2022).

Já Mauro Gaudêncio Júnior Teixeira, aponta os desafios da nova hermenêutica constitucional, pois a modernidade líquida afetou também a interpretação constitucional na aproximação de uma visão dogmática constitucional: das identidades autoconstituídas que devem ser suficientemente sólidas para serem reconhecidas como tais e ao mesmo tempo flexíveis o suficiente para não impedir a liberdade de movimentos futuros em circunstâncias constantemente cambiantes e voláteis. [...]

 Ou a notória dificuldade de generalizar as experiências, vividas como inteiramente pessoais e subjetivas, em problemas que possam ser inscritos na agenda pública e tornar-se questões de políticas públicas (BAUMAN, 2010, p.56).

Júnior Teixeira apud Luís Roberto Barroso, aponta em sua obra três grandes transformações teóricas que revolucionaram o conhecimento tradicional relativamente à aplicação do direito constitucional, a saber: a) o reconhecimento de força normativa à Constituição; b) a expansão da jurisdição constitucional; c) o desenvolvimento de uma nova dogmática de interpretação.

O que contribui para contribuir as mudanças paradigmáticas sobre da Teoria da Constituição, trouxeram contribuições significativas para modelo jurídico institucional vigente em nosso país.

Há casos difíceis ou hard cases que decorrem da colisão de normas constitucionais, de questões morais, onde o papel do aplicador (julgador) ascenderá para criar a solução constitucionalmente adequada para o caso concreto. (In: JÚNIOR TEIXEIRA, Mauro Gaudêncio. Modernidade líquida. Os desafios da norma hermenêutica constitucional. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/24722/modernidade-liquida Acesso em 11.01.2022).

Estamos vivenciando a era de grupos de referência predeterminados a uma outra comparação universal, em que a autoconstrução individual pode influenciar de forma positiva o processo de interpretação da norma, fomentando à participação da sociedade na condição de destinatários da norma, seja como cointérpretes, conforme já explicava o doutrinador Haberle em sua obra intitulada Hermenêutica Constitucional, ao propor uma hermenêutica democrática, fazendo prevalecer a vontade da Constituição.  Afinal, deve-se realçar a relevância dos mecanismo que disseminem a vontade da Constituição, como a inclusão e a garantia e acesso aos direitos consagrados em nossa Constituição.

Lidar com a fluidez constante dos fatos e valores afetam o Direito e, lidar com isso é um dos desafios da Justiça, segundo o historiador Leandro Karnal. Pois afinal, nesse mundo líquido a autoridade é diluída, onde as realidades são dinâmicas e rápidas. Vivenciamos mudanças permanentes e, que não dependem da consciência e da vontade humana. Assim, temos opções, a saber: ou me transformo e me adapto ou eu paro e, então, a transformação passa por mim.

 

Referências

BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo Os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 3ª ed., São Paulo: Saraiva, 2011.

BAUMAN, Zygmunt. Legisladores e Intérpretes. Tradução de: Renato Aguiar, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

DE VASCONCELLOS, Marcos. Realidade descrita por Zygmunt Bauman desafia o Direito e a Justiça. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2017-jan-09/realidade-descrita-zygmunt-bauman-desafia-direito-justica Acesso em 11.01.2022.

HÄBERLE, Peter. Hermenêutica Constitucional – A Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição: Contribuição para a Interpretação Pluralista e “Procedimental” da Constituição. Tradução de: Gilmar Ferreira Mendes, Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 1997, reimp. 2002.

HESSE, Konrad. A força normativa da Constituição. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris, 1991.

 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Baudrillard e mundo contemporâneo.

 






Baudrillard et le monde contemporain

 

 

Resumo: Baudrillard trouxe explicações muito razoáveis sobre o mundo contemporâneo, principalmente, sobre as trocas simbólicas e sobre a história que se repete e, a farsa que se repete em história.

Palavras-Chave: Sociologia. Filosofia. Idade Contemporânea. Política. História.

 

Résumé: Baudrillard a apporté des explications très raisonnables sur le monde contemporain, principalement sur les échanges symboliques et sur l'histoire qui se répète, et la farce qui se répète dans l'histoire.

Mots-clés: Sociologie. Philosophie. Âge contemporain. Politique. Histoire.

 

 

 

 

 

 

Jean Baudrillard[1] em sua obra “Simulacres et Simulation” apontou que a realidade deixou de existir e, passamos a viver a representação da realidade, difundida, na sociedade pós-moderna e, principalmente, pela mídia.

Com sua ironia sofisticada embasada em fundamentos sólidos, o filósofo defendeu que vivemos em uma era cujos símbolos têm maior peso e maior força do a própria realidade. E, desse fenômeno surgem os simulacros, simulações imperfeitas e malfeitas do real que, contraditoriamente, são mais sedutores e atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido.

O filósofo e sociólogo expôs nova ótica sobre as mudanças impostas pela mídia na vida contemporânea[2]. Utilizou linguagem irônica o que o tornou tão popular tanto que chegou a inspirar filmes norte-americanos tais como Truman Show, de 1998, e a série Matrix, de 1999.

Quando o real já não é, o que era, então a nostalgia assume todo o seu sentido. A sobrevalorização dos mitos de origem e dos signos de realidade. De verdade, de objetividade e de autenticidade ficam em segundo plano.

Escalado do verdadeiro e do vivido. Com a ressureição do figurativo onde o objeto e a substância desaparecem. A produção desenfreada do real e de referencial paralelo superior ao desenfreamento da produção material.

Assim, surge a simulação na fase que nos interessa: uma estratégia de real, de neorreal, de hiper-real. Que faz por todo lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão. (In: S&S, p. 14). In: Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard. Tradução de João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D'água, 1991.

Afinal, como descrever o real? Em que consiste a realidade?  Pois, damos valores[3] diferentes para as mesmas coisas e, temos diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema, levando por vezes, em consideração diferentes perspectivas sobre o que é a vida e como devemos nos comportar diante dela.

De acordo com Baudrillard[4], o que toda uma sociedade procura ao continuar a produzir e reproduzir, é ressuscitar o real que tanto lhe escapa. Por isso, a produção material atual é própria, é hiper-real. Tal realidade conserva todas as características do discurso da produção tradicional, mas não é além que sua refracção desmultiplicada. O hiper-realismo da simulação traz alucinante semelhança do real consigo próprio.

Ensinou Baudrillard, in verbis:

         “As pessoas já não se olham, mas existem institutos para isso. Já não se tocam, mas existe a contatoterapia. Já não andam, mas fazem jogging. Por toda a parte se reciclam as faculdades perdidas, o corpo perdido, a sociabilidade perdida, ou o gosto perdido pela comida. Reinventa-se a penúria, a ascese, a naturalidade selvagem desaparecida.” (S&S, p. 22).

Diferenciar a simulação do simulacro de fato, é relevante pois que é na simulação, ainda conseguimos perceber onde e como que estamos, e que de alguma forma, somos enganados, ou vivendo de alguma forma, algo que não é real.

Enquanto no simulacro, perdemos a noção de realidade, adentramos nessa suposta verdade, em um conceito onde já não possuímos mais o discernimento de saber que é uma distorção ou simulação.

Em vez de comunicação, esgota-se na encenação da comunicação. Em vez de produzir sentido, esgota-se na encenação do sentido. É um gigantesco processo de simulação[5].

É possível mensurar nossa percepção de realidade? Ou estaríamos tão imersos no processo de comunicação hiper-real[6], quando estamos conectados nas redes sociais? Perdemos o rumo e procuramos nelas uma vida supostamente perfeita, que segue uma nababesco roteiro de cinema, onde encenamos com nossos amigos e familiares aquilo que não somos de fato, somos apenas personagens de nós mesmos...

De onde vem tanta desinformação do mundo contemporâneo? “A desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos, que cria um campo de percepção vazio, um espaço como que desintegrado por uma bomba de nêutrons, ou por uma bomba que absorve todo oxigênio em volta." "O canibalismo é a forma última e mais sutil da hospitalidade.

E, ainda aduziu:

      “Não é quando se retira tudo que não resta nada, mas quando as coisas se revertem sem cessar e a própria adição já não faz sentido. O nascimento é residual se não for retomado simbolicamente pela iniciação. A morte é residual se não for resolvida no luto. O valor é residual se não for reabsorvido e volatilizado no ciclo das trocas”.

A sexualidade é residual quando se torna produção de relações sexuais. O próprio social é residual quando se torna produção de relações sociais. Todo o real é residual, e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no espectral.” (S&S, p. 179).

Baudrillard propôs uma série de conceitos ou senhas para tentar entender o mundo atual. Os aforismos são fragmentos que criam espaço simbólico ao seu redor, e assim facilitam a troca simbólica entre palavras e ideias.

O objeto então pertence ao reino do signo, designa a ausência do real e participa de trocas. E, a troca não envolve valor, feita como dádiva, sem compromisso, é uma troca simbólica, provoca a circulação de coisas, não seu acúmulo.

A sedução, uma peculiar estratégia feminina ligada ao universo simbólico, que desvia a pessoa de sua própria verdade. Enfim, o significado último do seduzir vem ultrapassar sua própria simulação, e inaugura um modo de circulação que só obedece à regra de seu próprio jogo, escapa ao sistema de produção e acumulação, inclui a troca simbólica[7].

A simulação é fingir ter o que não se tem, gera os simulacros. Estes, podem ser de três tipos: os naturais, otimistas e harmoniosos. O virtual ou hiper-real, mais real que o real, provoca a implosão do real, torna as pessoas sensíveis à quarta dimensão como verdade oculta. Os referenciais liquidados ressurgem como signo.

Baudrillard colocou o consumo no mesmo estatuto da linguagem e da cultura, na medida em que este é um sistema de troca socializada de signos.

Assim, a ciência se apresenta como simulacro ao destruir seu objeto de estudo. A única potência mundial entrou em processo de implosão e, tornou-se, um simulacro de poder. Há outro simulacro: o modelo civilizatório da universalidade, a tentativa da modernidade de uniformizar a tradição e o pluralismo cultural.

O capital inescrupuloso vem a desestruturar os referenciais e destrói o princípio de realidade no extermínio de todo valor de uso, de toda equivalência real, da produção e da riqueza. Os consumidores percorrem hipermercados para coletar objetos variados, arrastados pela ilusão de felicidade. Os meios de comunicação alienam as massas que desejam ser domesticada[8].

E, o humano pode ser “xerocado”, resultante de clonagem perpetrada pela cultura de massa. Assim, chegamos ao indivíduo fractal, que corresponde ao menor fragmento de metonímia de massa, sujeito[9] sem o outro.  Baudrillard afirmou in litteris: "A clonagem é uma maneira de desaparecer. A clonagem é uma multiplicação ao infinito do mesmo, é o sistema do mesmo que recusa a alteridade.".

Relatou a história disfarçada. Jean Baudrillard é um dos filósofos mais respeitados, ganhando destaque internacional, foi crítico voraz da sociedade do espetáculo[10], onde todos são acometidos de firme vontade de aparecer, ou como dizem na gíria, “causar”.

A análise de Baudrillard sobre a cultura de massa que resulta nas realidades virtuais que se tornaram protagonistas ao ponto de inspirar filmes tal como a trilogia Matrix. Analisou a presença hegemônica dos EUA e sua relação de dominação com o resto do mundo.

Afinal, para o sociólogo e filósofo, a hegemonia é estado supremo da dominação e, ao mesmo tempo, sua fase terminal. Afirmou ainda que se pode caracterizar a dominação existente entre mestre e escravo[11], como potencial alienação e, de relação de força e revolução e, sobretudo, simbólica.

E, tudo com a emancipação do escravo e a interiorização do senhor pelo escravo ora emancipado. Etimologicamente, “hegemon” significa aquele que comanda, que ordena e, não aquele que domina e explora.

Pode-se afirmar que a hegemonia põe fim a dominação. O dispositivo operacional nos torna seus reféns, além de escravo. Afinal, a dominação clássica passou pela substituição autoritária de um sistema de valores positivos, sua apresentação ostensiva e defesa.

Já a hegemonia contemporânea passa, ao revés, por uma liquidação simbólica de todos os valores. Enfim, para o filósofo francês o que divorcia a dominação da hegemonia é a falência da realidade, é o surgimento de princípio mundial de simulação e de virtualidade.

Desta forma, o filósofo chamou de hipocrisia ocidental[12] que repousa sobre a canibalização da realidade pelos signos. Então é uma sociedade que através da música, de dança, de absorver e, até mesmo devorar os mestres. Tal devorar é a forma mais sutil de hospitalidade.

Em face da hegemonia, todo pensamento crítico, toda reação à opressão, à alienação é virtualmente extinta. Quando, finalmente, o escravo emancipado interioriza o mestre, o que antes era dominação, torna-se hegemonia, e ao mesmo tempo o escravo devora o mestre.

E, a força absorve o negativo, e esta é devorada por quem a absorve. Daí, se explica a negatividade se faz de terrorismo. Quando a vitória é apenas aparente e a absorção do negativo anuncia sua própria dissolução. É o que se chama de agonia da força ou a agonia do poder.

O polêmico filósofo francês comentou sobre a eleição de Arnold Schwarzenegger para ser o governador da Califórnia, que atesta a farsa, onde a política não passa de um jogo de ídolos e de fãs, o que significa um passo para o fim do sistema representativo.

Com razão[13], Baudrillard, vaticinou: “aquele que participa do espetáculo, morre para o espetáculo”. O que vale tanto para o cidadão comum como para os políticos. Porém, a degradação dos hábitos políticos norte-americanos não significa o declínio de sua força.

Por detrás da farsa, há, positivamente, uma estratégia política de nítida envergadura. Bem como o político que reproduz jargões populares, mas inescrupulosos, produzindo uma paródia de todos os sistemas de representação política, destilando desprezo à sua maneira.

Portanto, há a extrema forma de profanação de valores que fascina a todos, a vulgaridade e bizarrice e atingem de forma certeira o segredo da hegemonia. Ocorre a onipotência explícita sem o menor pudor ou cuidado.

O desafio dos EUA, segundo Baudrillard, é o de simulação que impõe ao mundo, como simulacro da força militar.  Trata-se da carnavalização da força conforme concluiu o filósofo com pessimismo que a história que se repete se torna a farsa. E, por sua vez, a farsa que se repete se torna história.

Talvez, somente a indiferença nos redima[14].

 

 

 

Referências

BAGDIKIAN, Ben. O monopólio da mídia. São Paulo: Página Aberta, 1993.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Tradução de Arthur Mourão. São Paulo: Edições 70, 1970.

__________________. A troca simbólica e a morte. São Paulo: Loyola, 1996.

BAUMAN, Zygmunt. A cultura do lixo. Em: Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 119.

BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilos e lógica de classe. Em ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.

CATTANI, Rosane Maria Rizzi.  Baudrillando: o lado mais obscuro da globalização. Revista FAMECOS. nº 19, dezembro de 2002. Porto Alegre. pp.49-64.

GERBER, Daniel. 2020, o ano da hipocrisia. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/337981/2020--o-ano-da-hipocrisia  Acesso em 03.11.2021.

QUARANTA-GONÇALVES, Márcio Luiz; SOARES, Maria Lúcia Amorim. Fragmentos de um Baudrillar virtual na tela da educação ambiental. Disponível em: http://www.epea.tmp.br/epea2007_anais/pdfs/plenary/TR84.pdf. Acesso em 3.11.2021.

QUINAFELEX, Rodolfo. Hiper-realidade, simulação e simulacro em Jean Baudrillard. Disponível em: https://medium.com/refracoes/hiper-realidade-simula%C3%A7%C3%A3o-e-simulacro-25b35dc4416d Acesso em 3.11.2021.

ROBLES, Fernando Luís Pereira. Por uma proposta baudrillardiana em psicossomática e psicanálise contemporâneas: algumas ponderações concernentes aos fenômenos corpo e alma na obra Da sedução. Disponível em: https://www.scielo.br/j/fractal/a/66yDwqkvDV7SzPyc5cmGmvz/?format=pdf&lang=pt Acesso em 03.11.2021.

THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Baudrillard: trabalho e hiper-realidade. Disponível em: https://www.scielo.br/j/raeel/a/XLCG9KDtPBPK8YSqmk6bDrq/?lang=pt Acesso em 03.11.2021.



[1] Jean Baudrillard (1929-2007), sociólogo e filósofo francês. É considerado um dos principais teóricos da pós-modernidade e um dos doutrinadores que melhor diagnosticamente o mal-estar contemporâneo. Foi um dos fundadores da Revista Utopia, além de ter publicado mais de cinquenta livros ao longo de sua vida. Estudou alemão na Sorbonne, tendo traduzido para o francês obras de Karl Marx e Bertolt Brecht. Lecionou sociologia na Universidade de Nanterre e sua tese de doutorado, "O sistema dos Objetos", foi publicada em 1968.  A obra era voltada para um estudo semiológico do consumo, assim como seus dois livros seguintes, “A Sociedade de Consumo" (1970) e "Por uma Crítica da Política Econômica do Signo" (1972).  Outras de suas obras que merecem destaque são: "À Sombra das Maiorias Silenciosas" (1978), "Simulacros e Simulações" (1981), “América" (1986), "A Troca Impossível" (1999) e "O Lúdico e o Policial" (2000).  Pensador polêmico, Baudrillard desenvolveu uma série de teorias sobre os impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas. Baseou sua filosofia no conceito de virtualidade do mundo aparente, refutando o pensamento científico tradicional. Criticava a sociedade de consumo e os meios de comunicação e considerava as massas como cúmplices dessa situação.

[2]  Do mundo bipolarizado passamos ao mundo globalizado, após a queda do Mura de Berlim, em 1989. Os conceito de pós-orgia e simulacro de Baudrillard, dão sustentação à interpretação da nova ordem capitalista, entrelaçada com as concepções com a pós-modernidade e pós-história. As questões centram-se nos fenômenos extremos da dessimbolização, da clonagem e do panopticismo, como apanágios depois da orgia. Diante tanta efervescência, levanta-se o questionamento para o Terceiro Mundo: realizaram-se as utopias? Baudrillard nos indica o lado mais obscuro do fenômeno chamado globalização.

[3] Baudrillard afirmava que os objetos não possuem apenas um valor de uso (sua finalidade) e um valor de troca (seu preço), como enfatizados na teoria econômica clássica, mas também um valor de signo, por meio do qual eles atribuem um determinado status aos seus proprietários.

[4] As suas obras principais: Le Système des Objets (1968); La Societé de Consommation: ses mythes et ses Structures (1970); Pour une Critique de l'Économie du Signe (1972); Le Miroir de la Production ou l'Illusion Critique du Matérialisme Historique (1973); L'Échange Symbolique et la Mort (1976); De la Séduction (1979); Simulacres et Simulation (1981); Le Crime Parfait (1995); Le Paroxyste Indifférent (1997).

[5] A partir das elucubrações de Baudrillard, precisamos questionar até onde o Terceiro Mundo, onde se situa o Brasil se enquadra plenamente nesta perspectiva de globalização e de pós-modernidade. Abre-se a caixa de Pandora e, nos torrentes questionamentos, sonhamos com a realização de liberdades e só que os caminhos não se subvertem fora dela e, o paradoxal, é que o outro já esgotou seu limite e, só lhe resta o estado de simulação, aquele em que só podem repetir todas as cenas porque elas já aconteceram, seja real ou virtualmente.

[6] Hiper-realidade é o conceito que se aplica à filosofia contemporânea. Em semiótica e na filosofia pós-moderna, o hiper-realismo (não confunda com surrealismo) é um termo para descrever um indício de uma expansão da cultura pós-moderna. A hiper-realidade é um meio de caracterizar a via das interações conscientes com a "realidade". Especificamente, quando uma consciência perde sua habilidade de distinguir a realidade da fantasia, e passa a se relacionar com ela, posteriormente, sem dispor da compreensão que ela requer, de modo que acaba por ser deslocado para o mundo do hiper-real. A natureza do mundo hiper-real é caracterizada pelo "aperfeiçoamento" da realidade.  Alguns famosos teoristas da hiper-realidade são Jean Baudrillard, Albert Borgmann, Daniel Boorstin e Umberto Eco.

[7] Em "A troca simbólica e a morte" (1976), Baudrillard prossegue na argumentação, afirmando que a troca simbólica perdeu seu caráter organizador uma vez que o campo simbólico só subsiste na forma do simulacro. Os simulacros substituíram as ideologias. O código marxista e o código freudiano escondem a perda do valor.  O código da sociedade de consumo é o da salvação do corpo enquanto signo da saúde, da beleza, do erotismo. É o do desprezo pelo espírito, pela sensatez, pelo saber, pelo amor. Vale a função-signo, o corpo, que não é um artigo, uma mercadoria, mas um artifício de venda: um simulacro. A violência que obriga ao esforço produtivo não existe mais. O trabalho se tornou uma demanda social, como o lazer. Cada vez menos energia humana é necessária à produção de coisas reais. Vive-se a dramaturgia do trabalho, com seus ritos, suas obrigações, suas férias, suas greves. Trabalhamos para gerar simulacros.  O próprio trabalho é um simulacro onde o posto, o nível, o lugar, a organização identificam o signo. Nem o produto nem o esforço produtivo são valorizados.  Só o simulacro. In: THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Baudrillard: trabalho e hiper-realidade. Disponível em: https://www.scielo.br/j/raeel/a/XLCG9KDtPBPK8YSqmk6bDrq/?lang=pt Acesso em 03.11.2021.

[8] Bauman também é pertinente ao estudo de Baudrillard, o sociólogo da modernidade líquida, onde cunhou o conceito que se embriaga de infinitude que norteou as ações humanas durante muitos séculos, até na passagem da idade média para a idade moderna, onde começa desaparecer junto à importância da religião, da família e, de outros sistemas de controle social. Enfim, a segurança antes oferecida pelo eterno começou a ser corroída pela modernidade, quando tudo começa a derreter, o que antes era é solido.  Pois, profanar tudo que é sagrado. In: BAUMAN, Z. A cultura do lixo. EM: Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 119.

[9] O protagonismo das noções de corpo e alma enquanto pontos de apoio para os complexos jogos simbólicos, rituais e antagonísticos, na complexa relação interdependente em que se pode cogitar em sempre dinâmicos, reversíveis em termos mais do léxico de Baudrillard do que seria um sujeito versus objeto, na lógica do afeto e na imanência dos duelos intersubjetivos.

[10] A própria expressão "sociedade do espetáculo" pode dar margem a interpretações equivocadas, se for entendida como o poder que as imagens exercem na sociedade contemporânea. É certo que Guy Debord, o criador do conceito de "sociedade do espetáculo", definiu o espetáculo como o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens. É impossível haver separação entre essas relações sociais e as relações de produção e consumo de mercadorias. A sociedade do espetáculo corresponde a fase específica da sociedade capitalista, quando há interdependência entre o processo de acúmulo de capital e o processo de acúmulo de imagens. A produção de imagens, a valorização da dimensão visual da comunicação como instrumento de exercício do poder, de dominação social, existe, conforme argumentou Debord na obra intitulada "Sociedade do Espetáculo", publicado em 1967, em todas as sociedades onde há classes sociais, isto é, onde a desigualdade social está presente graças à divisão social do trabalho, principalmente, a divisão entre o trabalho manual e trabalho intelectual.

[11] Somos todos servos de códigos, seja o binário, DNA, o digital e, etc... A era do código supera a era do signo. Praticamente não produzimos mais, reproduzimos. Codificamos para copiar. Enfim, a crítica de Baudrillard às abordagens convencionais ao trabalho é a mesma feita por Derrida ao logocentrismo e de Foucault ao racionalismo: as epistemologias que aí estão são inadequadas para analisar o quadro da sociedade, à informação e à dinâmica voraz da vida contemporânea. A racionalidade dos códigos significa que a qualidade não precede a quantidade. E, na sociedade codificada não existe a liberdade nem tempo livre.

[12] O ano 2020 nos parece que trouxe um disrupção absoluta para com o conceito de verdade, abandonando-o em prol da narrativa de maior conveniência ao momento ou ao grupo político que dela se utiliza. Os governantes das mais variadas graduações ordenaram o trancamento geral da população do globo, medida essa sem precedentes históricos, de violência ímpar em relação ao direito de ir e vir das pessoas, que nos traz à memória, imediatamente, a Segunda Guerra e dois de seus grandes exemplos de humanidade possível: de um lado, Eichmann e o retrato do mal, escancarando ao mundo pela figura do "alemão médio" como a burocracia e o correlato cumprimento do dever de cidadão é a mola mestra de um verdadeiro genocídio; de outro Churchill, soldado de inúmeras incursões, prisioneiro na Primeira Guerra Mundial e dono de uma personalidade sem igual na história do século XX, protendo aos seus conterrâneos sangue, sofrimento, lágrimas e suor. In: GERBER, Daniel. 2020, o ano da hipocrisia. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/337981/2020--o-ano-da-hipocrisia Acesso em 03.11.2021.

[13] "Todos os grandes esquemas da razão sofreram o mesmo destino. Eles só descreveram sua trajetória, só seguiram o curso de sua história no diminuto topo da camada social detentora do sentido (e, em particular do sentido social), mas no essencial somente penetraram nas massas ao preço de um desvio, de uma distorção radical". Jean Baudrillard, in The Shadow of the Silent Majorities.

[14] A tarefa de refletir sobre a pandemia causada pelos vírus Sars-Cov-2, origem da Covid-19, se mostra complexa e enigmática, não apenas pela questão epidemiológica, sua origem e de cura, e, sim, pela mobilização de questões contemporâneas de difícil visualização. É preciso viajar da filosofia até biologia. É necessário reconstruir o diálogo entre o pensamento de Baudrillard, nessa hiper-realidade que pode ser interpretada como niilismo do abandono da questão do ser, instaurando total supra realidade, que se descola e se põe além da noção de verdade. Não podemos ser indiferentes, a necessidade de vacinar-se contra o Covid-19 e, também, atender e respeitar as regras sanitárias, principalmente, em respeito à saúde pública e a também a individual.