terça-feira, 1 de outubro de 2024

Sabedoria de Polônio. Sabedoria da História.

 




Sabedoria de Polônio.

Sabedoria da História.



Resumo: Em meio aos sábios conselhos de Polônio bem como de outros personagens nas obras de William Shakespeare e, ainda, a contribuição de Ortega y Gasset podemos aprender com a história e com a memória humana que podem ser eficazes ferramentas para vivenciar e superar o contemporâneo momento da história nacional.

Palavras-chave: Filosofia. Ética. Sociologia. História. História do Brasil.



Résumé: Parmi les sages conseils de Polonius, ainsi que d'autres personnages des œuvres de William Shakespeare, ainsi que la contribution d'Ortega y Gasset, nous pouvons apprendre de l'histoire et de la mémoire humaine qu'ils peuvent être des outils efficaces pour expérimenter et surmonter moment contemporain de l'histoire nationale.

Mots clés: Philosophie. Éthique. Sociologie. Histoire. Histoire du Brésil.





Os conselhos de Polônio para seu filho Laertes na peça Hamlet1 de William Shakespeare nunca foram tão contemporâneos e úteis. E que foram tão brilhantemente sintetizados pelo Professor Leandro Karnal.

O primeiro é uma homenagem à prudência. "Não dê voz ao que pensares, nem transforme em ação um pensamento tolo." Esse conselho nos ensina a importância do silêncio e, ao mesmo tempo, um cultivo ao diálogo e a temperança.

O segundo conselho de cunho mais ético: “Seja amistoso, sim, jamais vulgar”. Eis o enorme desafio em conhecer bem os limites em ser amistoso, sem recair em vulgaridades e pieguices.

O terceiro conselho: "Os amigos que tenhas, já postos à prova. Prende-os na tua alma com grampos de aço; mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume Mal saído do ovo."

Aprenda valorizar amigos testados, mas não oferecer a amizade a cada um que aparecer a sua frente. Em outras palavras, seja seletivo e cuidadoso.

O próximo conselho é: “Procura não entrar em nenhuma briga; mas, entrando, encurrala o medo no inimigo”. Traduzindo: deve-se mesmo evitar qualquer briga ou litígio, mas caso seja forçado a entrar numa, que seus inimigos o temam.

Ainda persistindo na linha do comedimento recomendável, o conselho de Polônio revela-se sendo precioso e exato: "Presta ouvido a muitos, tua voz a poucos. Acolhe a opinião de todos – mas você decide."

No trato social, esse conselho é muito pertinente, in litteris: "Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir. Mas, nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas. O hábito revela o homem, E, em França, as pessoas de poder ou posição. Se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem. "Afinal, deve-se usar as roupas conforme sua renda, sem jamais ser extravagante.

O sétimo conselho, in litteris: “Não empreste nem peça emprestado: Quem empresta perde o amigo e o dinheiro; quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia". Em síntese: É melhor não emprestar dinheiro a amigos, para não perder amigos e dinheiro.

E, o oitavo conselho ratifica: “Sê fiel a ti mesmo. E, jamais serás falso para ninguém”. Em verdade, a humanidade caminha há milhares de anos sobre a terra, numa extensa saga onde que o mais relevante é prover a sobrevivência, em sua máxima amplitude, tanto nos bons momentos como nos maus momentos.

Enfim, é o somatório de tais vivências que constitui um patrimônio inestimável. A esse patrimônio chamamos história.

O verdadeiro tesouro do homem é composto de seus erros empilhados, um sobre o outro, como pedra sobre pedra, ao longo do tempo, enfim, querer começar novamente é mesmo a humilhação mais vulgar do homem e o plágio do orangotango.

O homem nunca é o primeiro homem, pois já existiu certo nível de passado acumulado. Eis o único tesouro do homem, seu privilégio e marca indelével registrar o presente trazendo em si a herança do passado. A maior riqueza não consiste naquilo que parece ser certo e digno de ser conservado, mas é ter a memória dos erros, que tanto nos permite não os cometer para sempre.

Por essa razão, Nietzsche definiu o homem superior como o ser da mais longa memória. Isso é ser um povo de homens, poder hoje continuar em seu ontem, sem por isso deixar de viver para o futuro, poder existir no autêntico presente, uma vez que o presente é somente a presença do passado e o porvir, o lugar onde o pretérito e futuro efetivamente existem.

O profano se coloca diante de uma obra de arte desprovido de preconceitos, mas também esta é a postura de um orangotango. Eis que não pode formar juízos. Ortega Y Gasset2 derrubou os alicerces hipócritas de quem defende, como sendo sinônimo de maior autenticidade o naturalismo, o populismo e o imediatismo.

Afinal, toda cultura é artifício, resultante de uma cadeia de ideias, práticas, pontos de vista e, principalmente, tomadas de decisão. No fundo, não existe diferença entre realismo e idealismo, pois o realismo já é um idealismo. A práxis é vestígio final da teoria.

Adão, segundo as escrituras sagradas, foi o primeiro ser que, vivendo, foi capaz sentir a si mesmo viver. Então, a vida existe como um problema. Eis o que o diferencia do orangotango. Afinal, não existe arte sem reflexão.

E, da tragédia da ciência nasce a arte. E, os métodos científicos nos abandonam e, logo começam os métodos artísticos. As artes são parte do mistério. O enorme mistério da natureza humana.

O que leva uma turba a destruir o patrimônio cultural, artístico e histórico de uma nação? A falta de amor à pátria/? A falta de





identificação como cidadão, atuando como um gado onipotente e selvagem a devastar tudo e todos.

Um selvagem não entende a democracia e, muito menos, a república. E, sequer admite que o outro pense de forma diferente. Esse selvagem não conhece educação, família, cidadania e, muito menos, pátria. Vive em hordas regadas apenas de comida, água e ódio. Ódio de ser exatamente o que é.

O conselho de Polônio, por vezes, relaciona-se com o sentimento de vingança e, conforme aparece em quatro obras diferentes de Shakespeare, a saber: Titus Andronicus, Othello, Macbeth e Tímon de Atenas.

Em Titus Andronicus, Demetrius, filho de Tamora, aconselha a mãe contra Titus por causa da morte do outro filho – tal estímulo ao conflito provocará a morte do trio futuramente; Tamora aconselha Saturninus contra Titus afirmando a desonra que este provocou àquele pelo fato de não conseguir cumprir o compromisso de casar a filha – o conselho à discórdia de ambos determinará a morte de Titus pelas mãos de Saturninus e a morte de Saturninus pelas mãos de

Lucius para vingar seu pai; Aaron (amante de Tamora) aconselha Chiron e Demetrius (filhos de Tamora) a executarem o estupro de Lavínia (filha de Titus) – o conselho não somente causa danos à Lavínia, como violência sexual e mutilação, como também promove o assassinato de Chiron e Demetrius pelo ato de vingança de Titus; Tamora aconselha os filhos a praticarem perversidades contra Lavínia – o ato marcará os três com a vingança de Titus, assassinando-os.

Na peça Othello, o Mouro de Veneza, Shakespeare apresenta um personagem que apresenta maior complexidade no ato de dar conselhos – por estar a vingança sempre disfarçada no comportamento de Iago. Iago é movido pelo desejo de vingança pelo fato de Othello tê-lo preterido para o cargo de capitão e ter colocado Cássio no lugar.

Iago aconselha Rodrigo (apaixonado por Desdêmona) a juntar dinheiro e a fornecê-lo para separar Othello de Desdêmona com





presentes – em verdade, Iago quer tomar dinheiro de Rodrigo; Iago aconselha Cássio a procurar Desdêmona3 para intermediar o conflito de Othello com ele – o que Iago intenta é usar tal prática para simular uma aproximação de cunho erótico-afetiva entre os dois para Othello.

Iago aconselha Othello a ter cuidado com o ciúme – no caso, ele intenta plantar tal ideia na cabeça de Othello.

Iago aconselha Rodrigo a assassinar Cássio para obrigar Othello e Desdêmona a ficarem em Veneza – por trás desse conselho, Iago planeja o assassinato de Cássio e de Rodrigo ao mesmo tempo. Todo conselho de Iago disfarça uma maldade contra o próprio aconselhado, e a tamanha maquinação volta-se contra o próprio conselheiro quando Othello descobre suas reais intenções.

Já em Macbeth, dá-se um conselho pautado na justiça que indicará a catástrofe da tragédia. Banquo, uma vez alvejado mortalmente, aconselhou o filho a escapar para também não ser morto e para poder vingá-lo no futuro.

Trata-se do cumprimento de profecia, o mal necessário para que a verdade, ainda que seja ambígua, que fora dita pelas feiticeiras impere, apesar das palavras pré- mortis de Banquo.

Em “Tímon de Atenas”, o conselheiro é uma figura impotente, vulnerável, enlouquecido e rejeitado pelo endividamento excessivo. Estando como elemento desprezado pela ordem social,

Timon tenta vingar-se dela aconselhando os mais desprivilegiados a produzirem um caos na sociedade romana. Timon aconselha os subalternos a cortarem as gargantas dos credores e a roubarem seus amos.

Timon aconselha as amantes de Alcebíades a espalhar doenças para infectar os cidadãos com seu sexo; Timon aconselha os ladrões a roubarem tal como é a natureza dos seres e a lógica da organização social – um dos bandidos desiste da profissão depois de ouvir tanta maldade.

Eu sou eu, e minha circunstância”, já afirmava Ortega y Gasset. E, circunstância passa a ser tudo o que me rodeia, a saber: a realidade cósmica, a corporalidade, a vida psíquica, a cultura onde se vive, e nesta está incluída as experiências acumuladas no tempo.

Segundo Ortega y Gasset: “O tigre de hoje tem que ser tigre como se jamais houvesse existido tigre algum: não tira proveito das experiências milenares por que passaram seus semelhantes no profundo fragor das selvas. “Todo tigre é um primeiro tigre: deve começar desde o princípio sua profissão de tigre”.

O filósofo espanhol4 era um conservador tanto que condenava as tentativas de reformar o mundo pelas revoluções e guerras que tanto rompem violentamente com a tradição sem superá-las, fadando-as ao fracasso e à violência.

O que distingue o homem do animal é a sua capacidade de reter memória e, romper a continuidade com o passado é o querer começar de novo, é aspirar a descer. Além de subir e plagiar o reles orangotango.

Vivemos num mundo extraordinário repleto de avanço científico e tecnológico, no entanto, o homem se interessa cada vez menos pelos princípios da ciência e valores fundamentais. O mundo é muito civilizado, porém, seu habitante não o é. Nem sequer enxerga a civilização nele, mas a utiliza como se fosse a natureza. De forma predatória e débil.





O perigo do nacionalismo exacerbado é ser um beco sem saída, por justamente ir contra o princípio nacionalizador, é exclusivista enquanto esse é inclusivista. Afinal, a formação do Estado repousa na superação de diferenças e, não na separação em razão destas.

O conceito de nação e de herói foram criados pelos detentores do poder da Idade Moderna para servir de sustentação ideológica aos seus Estados.

A heroicização da História fora, inicialmente, desenvolvida pelos iluministas ao final da Idade Moderna que estavam criticando os monarcas que usavam a imagem do herói e da nação para consolidar o seu poder.

Em nosso pobre país, as contemporâneas demonstrações de patriotismo são mais habituais quando relacionadas ao futebol, principalmente, por ocasião da Copa Mundial. Noutras ocasiões, e até em datas comemorativas, não se enxerga nem evidencia significativas demonstrações voluntárias de patriotismo.

A invasão5 ocorrida em 08.01.2023 e perpetrada por grupos de vândalos que depredaram prédios públicos e patrimônio público na capital brasileira revela a má compreensão do que seja realmente patriotismo e cidadania.

A grande maioria da população sequer sabe cantar o Hino Nacional por inteiro. E, em toda América Latina quando se aceita tranquilamente que todos seus grandes generais sejam taxados de caudilhos6, traduz fielmente o que o saudoso Nelson Rodrigues chamou em meados do século XX, e identificou nosso rotundo "complexo de vira-latas7".

Xenofonte afirmou: "Os homens obedecem com a melhor vontade àquele que reputam mais sábio, e por isso capaz de lhes promover seus interesses".

O maior dilema da liderança é conciliar as duas situações, a saber: a autopreservação e encabeçar os empreendimentos audaciosos, capazes de garantir não apenas a sobrevivência, mas também o progresso e a vitória com dignidade.



Referências.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. coordenada e revisada por Alfredo Bosi. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco: Poética. Os Pensadores. v.2. 4ª.ed. São Paulo: Nova Cultura, 1991.

CÍCERO. Da República. Coleção Mestre Pensadores. São Paulo: Escala, 1990.

GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Tradução de Herrera Filho. São Paulo: Vide Editorial, 2016. Disponível em: http://www.leb.esalq.usp.br/leb/aulas/lce1302/ortega.pdf Acesso em 11.01.2023.

______________________. O Homem e os Outros. São Paulo: Vide Editorial, 2017.

PRADO, Thiago Martins. A função o conselho na obra trágica de Shakespeare. Revista Linha Mestra n. 36. P. 810-813. Setembro/ dezembro, 2018.

NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César e Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SÁNCHEZ, Juan Escámez. Ortega Y GASSET. Tradução e organização de José Gabriel Perissé. Coleção Educadores. MEC. Fundação Joaquim Nabuco. Pernambuco: Editora Massangana, 2010. Disponível em: https://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-131581/ortega-y-gasset Acesso em 11.01.2023.

SHAKESPEARE, William. Tragédias e comédias sombrias. (Teatro Completo v. 1) São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2016.

XENOFONTE. Ciropedia. Edição digitalizada do livro físico Clássicos Jackson. Volumes XXIII e XXIV. Versão para o português de João Félix Pereira. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/ciropedia.df . Acesso em 11.01.2023.

1 Em Hamlet, Hamlet aconselhou Polônio como forma de tripudiar do conselheiro ancião e a ridicularizar a sua posição. Hamlet também aconselhou Ofélia a ir a um convento; essa sua posição agressiva, sarcástica e grosseira implicará o desenvolvimento do comportamento desviante e na loucura de Ofélia.

2 José Ortega y Gasset (1883-1955) foi um filósofo, ensaísta, jornalista e ativista político, fundador da Escola de Madrid. Ortega é amplamente considerado o maior filósofo espanhol do Século XX. Ortega y Gasset publicou seu primeiro livro em 1914, o “Meditações de Quixote”. Em 1917, começou a escrever para o jornal El Sol, onde publicaria em 1930 sua principal obra, o “Rebelião das Massas” teve grande influência em intelectuais importantes do ocidente, principalmente, os ligados à filosofia política. No livro, ele refletia sobre o poder das massas, que uma vez alcançando o poder político, poderia tornar-se um perigo para as conquistas obtidas pelos países que adotaram democracia liberal. Segundo o filósofo, os ideais de uma nova sociedade, baseados no sindicalismo e no homem-massa (conjunto de indivíduos sem identificação específica na sociedade) poderiam conduzir à ignorância e demagogia.


3 O nome Desdêmona significa acidente. (Grego):De má estrela, a que teme a Deus Desdêmona é uma figura pura, beirando o inverossímil. Inocente das acusações que sofre por Otelo, não se ofende. Suas palavras e fidelidade são impotentes ante a suspeita de Otelo, de nada vale seu amor e dedicação. Suas grandes cenas são duas. No início da peça (cena ausente na ópera), seu pai a chama para saber se guarda fidelidade a ele e se ela foi raptada por Otelo. Numa bela fala, ela expõe seu respeito ao pai, mas afirma dever mais fidelidade ao seu marido. O corte da posição de filha para a de mulher é sustentado por ela com segurança, ao evocar que sua mãe fez o mesmo ao se casar. Ao final desta cena, o pai dela diz a Otelo algo como: “cedo a você aquilo que, se já não fosse seu, eu jamais cederia”


4 Ortega y Gasset insistiu na responsabilidade que o homem tem pelos atos e escolhas, e que temos condição de calcular o resultado de nossas ações: (...) cada um de nossos atos exige que o façamos brotar da antecipação total de nosso destino e o derivemos de um programa geral para nossa existência. E isso vale tanto para o homem honrado e heroico quanto para o perverso ou mesquinho. Pois também o perverso se vê obrigado a justificar seus atos perante si próprio, neles procurando significado e função em um programa de vida. De outro modo, ficaria imóvel, paralisado como o asno de Buridan.

5 No artigo 359-L do Código Penal o crime equivalente ao delito de insurreição”. O dispositivo legal, acrescentado pela lei do Estado democrático de Direito –sancionada em 2021 para substituir a Lei de Segurança Nacional, da ditadura militar, prevê reclusão de 4 a 8 anos para quem “tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais”. O direito penal aponta as violações previstas pela lei do Estado democrático de Direito -sancionada em 2021. Uma análise comum é de que os manifestantes poderão responder pelo crime de abolição violenta do Estado democrático de Direito. A pena é de 4 (quatro) a 8 (oito) anos. A punição pode ser ainda maior, caso tenham sido cometidos outros crimes. Pode-se caracterizar a invasão como crime de golpe de Estado, definido como a tentativa de “depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído”. A pena pode chegar a 12 anos e aumentar caso tenham sido cometidos outros delitos. Crime previsto no artigo 359-M do Código Penal: o de tentar depor governo legitimamente constituído. A pena é de 4 a 12 anos de prisão. O artigo foi incluído na legislação penal por uma lei aprovada pelo Congresso em 2021. Artigo 286: Incitar, publicamente, a prática de crime. Pena: detenção, de três a seis meses, ou multa. A mesma pena será aplicada para quem incita, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os Poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade. Artigo 288: associarem-se três ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes. Pena: reclusão, de um a três anos A pena aumentará até a metade se a associação for armada ou se houver a participação de criança ou adolescente.

Crime de Prevaricação. Artigo 319: Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. Pena: detenção, de três meses a um ano, e multa

Crimes Contra as Instituições Democráticas. Abolição violenta do Estado democrático de Direito. Artigo 359-L: tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos Poderes constitucionais. Pena: reclusão, quatro a oito anos, além da pena correspondente à violência.

Artigo 359-M: tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído. Pena: reclusão, de 4 (quatro) a 12 (doze) anos, além da pena correspondente à violência.

6 A palavra caudilho é originada do latim “capitellus” e a pessoa denominada assim, é um líder de uma determinada sociedade. Trata-se de um chefe político e militar de uma região específica, um comandante de exércitos privados e que possui propriedades rurais. E chefe de facção, debando armado.

7 Complexo de vira-lata é uma expressão e conceito criada pelo dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, a qual originalmente se referia ao trauma sofrido pelos brasileiros em 1950, quando a Seleção Brasileira foi derrotada pela Seleção Uruguaia de Futebol na final da Copa do Mundo em pleno Maracanã. O Brasil só teria se recuperado do choque (ao menos no campo futebolístico) em 1958, quando ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez. O fenômeno também é referido como vira-latismo. Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico: “Por "complexo de vira-lata" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima".



quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O desalento do pós-moderno.

 

O desalento do pós-moderno.







Infelizmente, a realidade social contemporânea é muito associada às circunstâncias que nos faz perceber o permanente estado de crise. Foi Zygmunt Bauman se destacou pela percepção apurada do status de crise na modernidade líquida.


E, suas duas derradeiras obras, a saber, “Estado de Crise” “Estranhos à nossa porta”. Os argumentos destacados representam as possíveis abordagens interdisciplinares que investigam a condição humana e as práticas sociais presentes.


É perceptível a perda do poder de agência do Estado, a difusão de riscos e vulnerabilidades vindas de condutas de estranhamento e desconfiança à alteridade, são questão que acendem o debate e comunicam-se com outras contribuições recentes sobre a teoria social.


Enfim, é inexorável a crise da pós-modernidade tida como fonte de tensão onde se articulam as incertezas, inseguranças e vulnerabilidades, enfatizando o individualismo, o egoísmo e a hostilidade em certos contextos, sendo a autocrítica social um bom caminho a ser trilhado para evitar tais problemas.


A sociedade contemporânea é caracterizada por sua condição de instabilidade sendo algo difícil de ser ignorado. Sendo razoável o diagnóstico que tal condição dificilmente seja elaborado com base em único vetor causal.


O fenômeno da globalização1 é articulado pela volatilidade na história social presente, sendo inviável ser a única explicação isolada. Não é por acaso que os aspectos e sentimentos sociais, direta e indiretamente relacionados à dificuldade de se estabelecer as ordens da sociedade contemporânea e que tanto desafiou os analistas desde 1970.


São notáveis as interpelações sobre as transformações dos comportamentos sociais e as consequências decorrentes para a sociabilidade e o modus vivendi contemporâneo.


Essa particular condição instável que é vivenciada pela sociedade atual, afeta sujeitos, instituições e relações humanas. E, Bauman deixou um expressivo legado teórico de grande relevância não apenas para a sociologia, mas ao vasto campo das ciências humanos. Em suas obras, o recurso à construção de diálogos com variados pensadores e estudiosos e mostrou-se como instrumento de elucidação de realidade complexa e dotada de peculiar mal-estar e única dentro da série de incertezas que a abriga.


A condição de crise pós-moderna2 é ampla e engloba estruturas, indivíduos e valores promove não apenas alterações severas nas instituições e práticas sociais, mas termina por reconfigurar ideais e utopias de sociedade, ou seja, nossas próprias projeções de futuro da humanidade.


O horizonte de crise infinito e que tem vínculos diretos com agitações deixadas pela passagem da modernidade, embora não se resuma uma simples decorrência dos não conclusos programas do momento anterior.


Lembremos que os projetos modernos de perfeição global tiraram seu ímpeto do horror à diferença e da impaciência crescente com a alteridade, sendo eles mesmos responsáveis pelo efeito paradoxal de difusão de diferenças e decorrente da franca fragmentação social.


Toda a ambivalência gerada e dirigida na era moderna não se esvai na pós-modernidade, ao revés, se estabelece reconhecida por suas características, peculiaridades e nas problemáticas que lhes circundam, muitas das quais promotoras de enormes vazios dos sujeitos e de suas indeterminadas identidades.


No vasto horizonte da liquidez, as identidades talvez sejam as encarnações mais agudas e mais profundamente sentidas e perturbadoras da ambivalência.


A preocupação moderna pela classificação e pela ordem deixaram as marcas entranhadas, especialmente, pelas violências e submissões que foram designadas em seu nome.


Simultaneamente, herdamos as lacunas e cisões pertinentes aos processos de integração social que, repletos de sensações de insegurança, medo e abandono compõem parte considerável de nossas percepções sobre a alteridade e o modo como lidar com estas, principalmente diante de incertezas que só sabem se acumular.


E, consciente ou inconscientemente, as ações diárias revelam sentimentos predominantes sobre a alteridade, bem como expressão a visão aturdida diante de questões para as quais não temos resoluções, mas que recaíram como nossa atribuição na versão contemporânea do contrato social.


Na pós-modernidade, as relações sociais tanto podem refletir uma busca pela comunidade e os laços integradores por esta propiciados (Bauman, 2003) quanto podem expressar a repulsa e intolerância à alteridade, revelando, a seu turno, a fragilidade dos sonhos gregários universalistas.


Nas derradeiras obras de Bauman que foram publicadas no Brasil apontaram para os elementos para reflexão e análise da permanente turbulenta dinâmica pós-moderna. E, nos colocam diante de conceitos e ideias trabalhadas pelo pensador em outros momentos, mas que também possibilitam novos olhares sobre a conformação de conjunturas sociais dos dias de hoje.


E, merece atenção que os citados textos elaboram uma articulação didática de ideias e que se apropriaram de fatos históricos recentes e instigantes ao leitor, e tais textos obtiveram uma célere popularização, de modo que as nossas ponderações podem contribuir para melhor apreensão dos argumentos ora desenvolvidos, partindo de uma base compreensiva que suscita tanto usos analíticos quanto os vínculos teórico-conceituais possíveis com obras do próprio doutrinador e também de outros intelectuais.


Sendo assim, procura-se abordar as principais noções teóricas e o raciocínio analítico que as envolvem, com o fito de destacar a melhor compreensão da condição humana dentro dos contextos contemporâneos.


E, assim, o conjunto da obra de Bauman, dando a centralidade às questões em torno da condição pós-moderna em a crise não se formou como mero episódio fortuito, bem como suas implicações para as relações sociais e padrões de sociabilidade.


E, ao incorporarmos à reflexão outros pensadores importantes da teoria social, os quais também despenderam atenção à investigação da incerteza particularmente presente em nossos dias, favorecendo os insights sobre a conformação notoriamente atordoante da condição de crise na atualidade.


Há principais enfoques contidos na obra “Estado de Crise” refletidos à luz do esquema teórico geral da modernidade líquida e seus atributos mais pungentes. Os elementos dessa incursão serviram de prólogo para o debate subsequente sobre a instabilidade da democracia atual e da emergência de dilemas de largo impacto na estrutura social.


E, as percepções decorrentes serviram como suporte para análise dos impasses especificamente atrelados aos surtos migratórios recentes. E, então, a reflexão abarca os argumentos trazidos pela obra “Estranhos à nossa porta”, cuja problemática evidencia bem a natureza de certas questões de ordem política, econômica, cultural e, também, moral tão expressivas de nossa realidade.


Para a reflexão dos elementos de cada obra a estruturação do ensaio compreende um segmento específico, no qual ganham espaço

algumas das conexões possíveis com a teoria geral e outras chaves de pensamento do autor, sobretudo os fundamentos mais emblemáticos para uma possível utilização com vistas à reflexão da conjunção atual quanto ao seu caráter inalienável de instabilidade permanente.


As referidas obras permitem desdobramentos de natureza interdisciplinar, vez que abordam os aspectos fundamentais da condição humana e social da modernidade líquida. Por sua vez, apresenta-se inevitavelmente equacionada à circunstância da partilha global de problemas, constituindo uma sensação etérea de medo e incerteza, revertida e materializada em condições e reações efusivas, pelas quais passam as dúvidas de identidade e da composição gregária.


À revelia da promessa moderna na constituição de instituições de regulamento e ordenamento social e jurídico. Nossa vida está longe de ser livre do medo, e o ambiente líquido moderno em que tende a ser conduzida dista em muito de ser livre de riscos, perigos e ameaças interculturais, a globalização, pontualmente, em seu viés negativo, o que reforça o espectro de vulnerabilidade3, passando o perigo a ser condição comum a todos os indivíduos, simultaneamente, em que sobre todos eles recai o véu da suspeição.


Não à toa, o medo, a instabilidade, a fragmentação e a crise fazem parte do grande repertório que Bauman retoma em “Estado de Crise” e “Estranhos à nossa porta”, ratificando sua relevância no entendimento dos fenômenos correntes do século XXI e, por essa razão, merecem especial atenção e análise.


Bauman propôs o exame de interações sociais, a saber, o destaque para percursos reflexivos voltados ao entendimento de fenômenos específicos ou a atenção às chaves conceituais que se apresentem para a apreensão da realidade atual no que se refere ao desalento pós-moderno.


Os recortes sobressaltados são apenas alguns dos tantos possíveis e, se fizeram conforme predisposições interpretativas conjuminadas com outros aportes analíticos que seguem acionados alinhavando os argumentos.


A crise do poder do Estado4 faz com que a sociedade conviva com estranho sentimento de constante turbulência. O que está presente no labor de diversos pensadores, assumindo tons e espectros variados. A difusão global dessa realidade convulsiva reflete, uma conjuntura histórica que se depara com o enfraquecimento de instituições sociais e políticas, trava-se o conflito entre novos e velhos espaços de poder, sinalizando a emergência de novo sistema social.


A instabilidade das transformações econômicas, políticas, ideológicas e culturais não seriam meras ocorrências episódicas e destituídas de sentido comum, mas sim, um movimento encadeado a certa matriz sistêmica típica de cada grande momento histórico, representado, nesse momento, pela civilização pós-industrial.


Pensadores como Beck(2010) e Giddens (1991) reforçaram a ênfase dada à grandiosidade dos riscos que circundam nossa situação existencial hoje, assim como à previsão futura de uma estrutura social no qual a distribuição de riscos se tornará condição decisiva na conformação de conflitos sociais, muito mais que a própria redistribuição de riquezas.


O aumento quantitativo e a elevação exponencial do poder de destruição desses riscos, sejam regionais e locais, em origem, mas globais em impacto e amplitude acabam por promover alterações decisivas nas formas de sociabilidade, e em tal medida que a imaginação humana fica desconcertada diante delas.


Diante da torrente de riscos, medos e insegurança, há uma inquietude que pontencialização da vulnerabilidade finca raízes na modernidade líquida, afetando notoriamente as instituições e os sujeitos, impelindo-os as condutas que, em muitos casos, contrariam os supostos alicerces morais que fundamentaram a civilização ocidental, especialmente aquela desenhada na Europa.


Em resumo, poderíamos afirmar que nos seus escritos derradeiros, o autor leva em consideração os efeitos mais práticos repercutivos por instituições e indivíduos quanto aos sentimentos e sensações derivados da condição permanente de crise e da vulnerabilidade a esta atrelada.


É exatamente sobre este tipo de enredo que a análise fogem ao objetivo exclusivo da sociologia, constituindo-se como recurso igualmente proveitoso às abordagens interdisciplinares direcionadas a esse tipo de problemática emergente. Assim, sem dispensar as evidências históricas para o entendimento das instáveis conjunturas políticas e econômicas atuais, Bauman e Bordoni (2016) intencionam esclarecer alguns dos porquês relativos ao estado de crise e à crise do Estado.


Tais crises são indissolúveis e difusas, existindo, por assim dizer, como uma espécie de componente inexpugnável da realidade presente; conforme lançam olhares sobre o colapso do Estado-Nação, cujo poder que lhe concedia capacidade resolutiva foi englobado por outras instâncias econômicas e supraestatais.


Ademais a conexão entre as incontáveis crises político-econômicas e a falência do Estado-Nação se apresenta indiscutível no cenário atual. E, as reincidentes turbulências que afetam os países prosperam justamente por faltar ao Estado faculdades e insumos resolutivos, sendo tal insuficiência resolutiva marca decisiva do divórcio entre o poder e a política, promovido pela separação da esfera econômica em relação aos marcos regulatórios e limitares.


O domínio do capital móvel e o fortalecimento de instâncias decisórias supraestatais como os espaços privilegiados de definição e de poder são movimentos que mitigam a soberania territorial do Estado. Assim, o declínio da potência de ação que atinge o Estado não é uma constatação propriamente nova, ou inovadora, mas, para ambos, parece assumir doravante feições dramáticas, particularmente, pela ampliação da experiência de abandono de indivíduos jogados à própria sorte.


Afora isso, o mercado, o capital e todas as demais forças supraestatais que operam o denominado “espaços de fluxos” desataram quase que completamente as amarras territoriais e normativas à figura do Estado. E, pelo expediente das novas formas administrativas e operacionais globalizadas as instâncias de operação livre se multiplicaram e se valorizaram, criando dinâmica por meio da qual regem suas próprias]regulações.


Nessa dimensão, despojado de seu efetivo poder de resolução, o Estado carece da capacidade de agenciar o que era respeitável e mantinha os cidadãos crédulos à solução de determinadas demandas, pelos menos, em tempos de apuros e percalços.


Percebe-se então, um estatismo sem Estado, ao qual se associa a crise de agência. E, por sua vez, sinaliza emblemática dificuldade do Estado em lidar com problemas de natureza global que se fazem concretos no território de exercício de sua soberania. Noutros termos, os poderes resolutivos (se é que existem) para os problemas econômicos de ordem global estão concentrados sob a posse de agentes supraestatais.


A exiguidade de meios do Estado no enfrentamento de questões dessa ordem, foi enfatizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial como as instituições supraestatais com poder suficiente (até certo ponto) para a dissolução de certos imbróglios nessa esfera. Porém, a atuação de tais instituições, apesar de questionável, tem favorecido muito a criação de novos abismos do que propriamente de solução para os problemas existentes.


Uma observação retrospectiva de ações desses poderosos agentes internacionais demonstra que, não raramente, à revelia do que pretendido (supostamente), o resultado para muitas pessoas têm sido a pobreza e, para muitos países vige mesmo o caos político e social. (Stiglitz, 2002).


O Estado não dispõe dos meios e recursos para realizar as tarefas que exigem a supervisão e os controles efetivos de mercados, para não cogitar de sua regulação e administração. E, tal situação acarreta grave perda de credibilidade da parte dos cidadãos, especialmente, quando reconhecem que o mínimo interesse coletivo, ainda que faça parte da agenda do Estado, não consegue confrontar os desejos do mercado.


Inviável financeiramente e reprovável modelo neoliberal merece atenção do Estado, para com indivíduos sob sua tutela é mitigada e reduzida a mero esquema mínimo. E, tal esquema se radicaliza em meio às conturbações duradouras e, paradoxalmente, justamente no momento em que os indivíduos requisitam algum grau de amparo por parte do Estado acabam desassistidos, relegados à própria sorte.


O interessante é que o quadro do esquema mínimo se radicaliza em meio às conturbações duradouras e, paradoxalmente, justamente no momento em que os indivíduos requisitam algum grau de amparo por parte do Estado acabam desassistidos, relegados à própria sorte.


Sobre o pressuposto da racionalidade neoliberal operam hegemônicos os princípios estimuladores do individualismo, coadunados com o modelo de gestão administrativa assumido pelo Estado.


O Estado “lava as mãos” quanto à vulnerabilidade e a incerteza provenientes da lógica (da falta de lógica) do livre mercado. A deletéria fragilidade da condição social é redefinida como assunto privado – uma questão com que os indivíduos devem lidar e se confrontar usando seus próprios recursos (BAUMAN; DONSKIS, 2014).


A referida conformação parece, cada vez mais, distar dos interesses das grandes camadas da população e assume delineamentos preocupantes nos países do Terceiro Mundo, sobretudo, porque a fatia populacional em condição de vulnerabilidade dilata-se facilmente e, é bem mais significativa do que nos países mais ricos.


O panorama contemporâneo se consolida também através do modus operandi de agentes supraestatais que estão impondo à natureza, às mulheres e ao Terceiro Mundo5 o custo do ajuste entre a produção econômica e os impactos socioambientais6. E, na prática, o modelo econômico global de hoje significa não somente a multiplicação de riscos, mas, especialmente, sua concentração e privatização.


No mar tempestuoso da competição econômica global, onde só os investidores da primeira classe recebem coletes salva-vidas, o número de desesperados a se debater na água em busca da sobrevivência é cada vez mais numeroso.

É de se imaginar que em uma circunstância tão cruel e assustadora alguns pilares ideológicos do Estado (e da própria modernidade) sejam duramente interrogados, se já não constarem completamente desacreditados. Neste sentido, a questão se torna mais profunda e a condição de crise ultrapassa, e muito, a simples falência estatal.


A instabilidade atual deriva de processos de ruptura que estão atrelados ao não cumprimento das principais promessas e estratégias da modernidade. A democracia certamente é um desses pilares modernos estratégicos que não conseguiu escapar da tormenta e, toda sorte de interpelações aplicáveis à sua forma atual e referendam a dúvida sobre a efetividade de suas realizações.


O individualismo e o consumismo são ideais do paradigma econômico dominante e refletem a racionalidade de uma esfera da sociabilidade humana bem peculiar. E, quando são transmitidos como propósitos a serem perseguidos pela sociedade, acabam por se configurar como malogros que trazem em seu revés maiores incertezas aos indivíduos.


Essas incertezas, adidas do declínio da confiança no poder resolutivo do Estado, destacam fendas na forma como a democracia vem se constituindo, e podemos senti-las especialmente na tensão entre suprema liberdade e mínima segurança.


O fracasso no provimento adequado de interesses partilhados coletivamente assevera a descrença na política e deixa margem para comportamentos que personificam essas fendas como a ascendente apatia política captada pela ideia de “pós-democracia” (CROUCH, 2004).


Porém, pelo caminhar das coisas na fase líquida da modernidade não era difícil vislumbrar o esgotamento do Estado em sua versão compromissada e protetora, nem tampouco o desestímulo com a política, uma vez que o acalento da integração social há muito se deslocou para a esfera do mercado, e este é espaço de realização privativa.


Todo esse processo, retratado por Bauman e Bordoni (2016) em que o cidadão se afasta da política reflete, na verdade, um tipo particular de prática adotada pelo sucessor do “Estado moderno7”, a qual se baseia “no expediente de privatizar a dissensão e torná-la difusa, em vez de coletivizá-la e instigá-la a se acumular” (BAUMAN, 1999).


O desalento que se abate cruel sobre os indivíduos é mesmo inevitável e, assim tão atomizados em suas incumbências de resolução de problemas que não criou, chances de êxito que estão cada vez menores. Em geral, há muito pouco de permanência nos laços e vínculos que se estabelecem e a dinâmica pós-moderna ao fixar o frívolo e o instantâneo como lógicas predominantes, afastam a possibilidade de êxito das construções coletivas de médio e longo prazo, como é o caso da política.



Tal debate ocupa boa parcela da produção teórica da sociológica nas últimas décadas, estando presente em vários textos.

In litteris:

Os teóricos franceses falam de précarité, os alemães de Unsicher/zeit e

Risikogesellschaf, os italianos de incerlezza e os ingleses, de insecurity – mas todos têm em mente o mesmo aspecto da condição humana, experimentada de várias formas e sob nomes diferentes por todo o globo [...] O fenômeno que todos esses conceitos tentam captar e articular é a experiência combinada da falta de garantias (de posição, títulos e sobrevivência), da incerteza (em relação à sua continuação e estabilidade futura) e de insegurança (do corpo, do eu e de suas extensões: posses, vizinhança, comunidade) (BAUMAN, 2001).



O caráter que sentimentos como “vazio existencial”, “vulnerabilidade”,

insegurança” e “instabilidade” adquirem no tecido social é decisivo na conformação das relações entre os sujeitos e entre estes e as instituições, ou seja, constituem parte da configuração geral das sociedades modernas.


Para Giddens (2010), tal arranjo ratifica a significância dos riscos na determinação de transformações cruciais no modo como nós (re)avaliamos ações e relações e instituímos padrões de confiança e segurança. Em verdade, “esses riscos, e os dilemas que os envolvem, penetram profundamente em nossas vidas cotidianas” (GIDDENS, 2010). Da questão ambiental ao terrorismo, aprendemos a conviver com os riscos e a partir deles instituímos novas versões de organização do poder e responsabilidade (BECK, 2010).


Porém, os riscos e as vulnerabilidades que se articulam nos dias atuais apresentam dilemas pertinentes à própria condição de integração social, não somente porque questionam o ordenamento das motivações legitimadoras do Estado como agente supostamente incumbido pela proteção social, mas especialmente pelo fato de despertarem espécie estágio mental de desconfiança permanente em relação aos outros.


Os riscos e as vulnerabilidades que se articulam nos dias de hoje apresentam dilemas pertinentes à própria condição de integração social, não apenas porque questionam o ordenamento das motivações legitimadoras do Estado como agente supostamente incumbido pela proteção social, mas especialmente pelo fato de despertarem uma espécie “estágio mental de desconfiança permanente” em relação aos “outros”.


Esses “estranhos” acabam materializando os perigos à nossa existência, na grande maioria das vezes por meio de discursos e situações que muito pouco de verdade possuem, mas que atingem diretamente a opinião popular e difundem as impressões necessárias à justificação da suspensão da moral na resolução, por exemplo, do “problema da migração”.


Nessa nova conjuntura as relações com os migrantes (reconhecidamente estranhos e potencialmente hostis) tendem a ser conduzidas predominantemente por formas que se afinam com governos e chefes políticos de tonalidades belicosas.


A questão migratória oscila entre a vulnerabilidade até a hostilidade e soa diferente de outras circunstâncias em que o deslocamento humano em massa foi registrado ao longo da história.


A situação atual parece ensejar articulações que atribuem às temáticas pertinentes aos contingentes populacionais migrantes um cuidado, não por acaso, muitos países têm constituído agendas políticas específicas para tais fins.


Certamente uma condição não generalizável a todas as ocasiões, mas que tem se destacado que no que se refere aos fluxos com destino à Europa que nos últimos se intensificaram.


De acordo com Giddens (2014), a Europa como um todo vivencia uma conjuntura econômica não muito favorável. Das medidas de austeridade às tentativas de reestabelecer normalidade para taxas de desemprego, pouco avanço parece ter sido feito pelos países, especialmente porque as estratégias voltadas ao crescimento dos grandes setores que movimentam o mercado de trabalho surtem cada vez menos efeito, uma vez que a hipermobilidade do capital e a flexibilização da mão de obra suscitam oportunidades mais vantajosos em outras partes do planeta.


A sensação de perigo e o alarme à intensidade dos riscos contribuem para o sentimento geral de insegurança e funcionam como ferramentas para a radicalização da desconfiança mútua. Esta, por sua vez, favorece e justifica o conjunto de ações estatais conduzidas com dureza e austeridade para a mitigação dos perigos e (perigos) vindos de fora.


A sensação generalizada de desconfiança mútua, “talvez o efeito mais pernicioso, seminal e prolongado da obsessão com segurança” impele-nos diretamente a um “estranhamento” radical dos estrangeiros e, por conseguinte a cisões que dificultam convívio social minimamente harmonioso com a alteridade (BAUMAN; DONSKIS, 2014).


Distanciando-se dos discursos hegemônicos que induzem à naturalidade desse tipo de comportamento por parte de Estados e populações “invadidas”, Bauman (2017) debate as raízes sociais de comportamentos e práticas hostis à alteridade.


Corriqueiramente a camuflagem político-midiática ora atribui o véu do terrorismo, subsequentemente justificando a “suspeição” desses migrantes, ora reproduz o argumento dos prejuízos econômicos (maior competição no mercado de trabalho e elevação dos gastos públicos com políticas assistenciais) que esses “indesejados” podem trazer aos países.


Em uma ou outra dessas versões o que se alimenta indiretamente é a hostilidade, a recusa, o acirramento e outros sentimentos sociais que negam o diálogo e estimulam a escalada de posturas políticas radicais.


É preciso frisar que esse tipo de política, o qual se fortalece com a “securitização” da crise migratória, não se torna expressivo e dominante (em muitas situações) ao acaso. A emergência de líderes e discursos cada vez mais enfáticos quanto à necessidade de endurecer as políticas de Estado pertinentes aos migrantes e refugiados encontra respaldo na aceitação popular. Embora varie de país para país quanto a essa aceitação, o fato é que tem sido evidente o crescimento do contingente favorável a esse tipo de posicionamento.


Para Bauman (2017), o cenário que se desenha é, particularmente, propício a autorreflexão já é, por assim dizer, uma estratégia da política de perpassar inclusive por aspectos de natureza moral. Neste caso, na há como dissociar o tipo de tratamento que estamos permitindo, e até mesmo exigindo, que o Estado assuma para com a questão dos migrantes, de um julgamento moral que concebe a esses “estranhos” um tratamento humano diferenciado.


Tanto os próprios cidadãos europeus excluídos e alijados da distribuição de riquezas, contingente populacional crescente em países como Grécia, Portugal, Itália, Espanha e França, como o emergente precariado alargam a camada social que se conforta psicologicamente ao identificar nos migrantes refugiados uma condição de existência inferior àquela em que se encontram.


Os migrantes representam aquele fundo desejado que se situa mais abaixo ainda – abaixo do fundo a que os misérables nativos foram delegados e relegados” (BAUMAN, 2017). Esses suspeitos e indesejáveis estranhos, de origens e projetos desconhecidos, além de proporcionar o conforto à autoestima daqueles que os repudiam, materializam-se como alvo de sentimentos raivosos (ressentimentos) que acumulam toda indignação quanto às consequências maléficas da globalização.


As “vítimas colaterais”8 dessas forças tendem a ser percebidas, por uma lógica viciada, como suas tropas de vanguarda, que estabelecem guarnições em nosso meio. Esses nômades – não por escolha, mas por veredicto de um destino cruel – nos lembram, de modo irritante, exasperante e aterrador, a incurável vulnerabilidade de nossa própria posição e a endêmica fragilidade de nosso bem-estar arduamente conquistado (BAUMAN, 2017).


Para o autor, fica claro, portanto, que a chamada “crise migratória” tem se constituído como um capítulo marcante da história recente, o qual tem fortes elementos dramáticos não apenas pelas imagens chocantes que produz, mas, acima de tudo, pela inevitável associação que lhe cabe quanto à dubiedade de nossa moral no tratamento com esses seres humanos que buscam alento em nossos territórios.


Do mesmo, repercute negativamente nessa realidade a ascensão (no mínimo preocupante) de discursos e ações belicosas que, apoiados pela opinião popular, encontra justificada a necessidade de tratamento diferenciado para essa categoria de pessoas (BAUMAN; DONSKIS, 2014).


Esse tipo de postura, o qual nutre fartos discursos xenofóbicos que vêm à tona polidos retoricamente com o verniz brilhante do nacionalismo austero, é particularmente preocupante, pois tende a ameaçar princípios que estruturam regimes políticos alinhados com a justiça e com o reconhecimento de direitos humanos invioláveis.


Ao mesmo tempo, pode potencialmente revelar a extensão de mais uma das crises endêmicas à pós-modernidade, uma de natureza eminentemente “moral” que se alimenta da distorção dos sentidos, da fuga da realidade, da opção por soluções instantâneas e da já indicada descrença na democracia.


A condição de crise indissolúvel que caracteriza a pós-modernidade é uma questão propícia a investidas interdisciplinares no campo das ciências humanas. Fator significativo de tal condição, a incapacidade resolutiva do Estado para com os problemas derivados da ordem econômica global afetam diretamente a condição de vida da maior parte dos indivíduos, ensejando um descrédito generalizado da instituição e da política.


Destituído do “poder de agência” e exercendo apenas parcialmente a soberania territorial, o Estado débil contribuiu para a própria crise do regime democrático participativo, a qual pôs em xeque a realização de seus propósitos, bem como a incongruência dos meios utilizados em sua persecução.


Tanto a crise do Estado quanto a da democracia estão inextricavelmente atreladas às ambivalências da modernidade (BAUMAN, 2001). Ao tomamos em perspectiva Estado de Crise e Estranhos à nossa porta, é expressivo o reforço a ideias já trabalhadas em outras obras que lastreiam a percepção de Bauman sobre a modernidade líquida e seu estado de crise permanente.


Com efeito, tanto a retomada de certos argumentos, conduzidas com compactação e didatismo, como a referência histórica de eventos recentes, podem ensejar uma utilização mais prática na compreensão da realidade atual e no estudo do pensamento baumaniano.


É oportuno sublinhar que em ambos os títulos discutidos neste ensaio, as reflexões relevantes à conjuntura dos dias atuais não só agregam elementos teóricos à compreensão da liquidez e de toda sua volatilidade, evidenciada pelas crises incontáveis que abarcam indivíduos, estruturas e suas relações, mas corroboram a importância do exercício da autocrítica que só a pós-modernidade é capaz de permitir.


Dentro deste contexto, o expediente da autoanálise nos é permitido porque “[…] a pós-modernidade é a modernidade que atinge a maioridade, a modernidade olhando-se a distância e não de dentro, fazendo um inventário completo de ganhos e perdas, psicanalisando-se […]” (BAUMAN, 1999). Talvez agora esse exercício seja nosso melhor instrumento contra as alternativas reconfortantes do consumismo, do individualismo e da xenofobia.




Referências

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BAUMAN, Z. Modernidade e Ambivalência. Tradução de Marcus Penchel Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzien Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

BAUMAN, Z. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Tradução de Plínio Dentzien Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

BAUMAN, Z. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução de Carlos Alberto Medeiros Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

BAUMAN, Z. Europa: uma aventura inacabada. Tradução de Carlos Alberto Medeiros Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

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1A globalização é um termo elaborado na década de 1980 para descrever o processo de intensificação da integração econômica e política internacional, marcado pelo avanço nos sistemas de transporte e de comunicação. Por se caracterizar por um fenômeno de caráter mundial, muitos autores preferem utilizar o termo mundialização. Muitos autores utilizam o termo “Aldeia Global” para se referir à globalização, pois ela não se limita aos planos políticos e eco mundialização nômicos, ocorrendo também no âmbito da cultura. O geógrafo e economista David Harvey, em sua obra “A condição pós-moderna”, utiliza-se de um conceito específico para se referir ao aumento da velocidade nas trocas comerciais e de informações: a compressão espaço-tempo. Isso porque, com os avanços nos meios de transporte, as grandes distâncias deixaram, ou estão deixando de ser um obstáculo. Ao mesmo tempo, os avanços nos meios de comunicação também “encurtaram” o tempo, o que se levava vários dias ou semanas para ser noticiado, hoje é conhecido pelo mundo todo em pouquíssimos segundos.

2A diferença brutal entre a metanarrativa político-filosófica que fundamenta a autoridade do conhecimento científico e as outras metanarrativas anteriores à modernidade seria que estas últimas se centravam na ideia de redescobir ou retomar a verdade original. Já a metanarrativa filosófica é teleológica, depende da ideia de um itinerário para algum alvo final. A recente história dos séculos XIX e XX se percebeu que o progresso científico por si mesmo não é garantia de melhoria das condições de vida, podendo até se transformar em destruição, como foi nas duas guerras mundiais. E mesmo quando existe o progresso, esse não é para todos, eis que a realidade gritante diferencia os países ricos dos pobres.

3As principais vulnerabilidades do mundo contemporâneo incluem mudanças climáticas, segurança cibernética, desigualdade econômica, crises de saúde, conflitos armados, escassez de recursos, migração forçada, extremismo, desinformação e riscos tecnológicos. A vulnerabilidade pode ser definida como uma situação em que o meio físico está vulnerável às pressões humanas. Geralmente, estão presentes três fatores: exposição ao risco; incapacidade de reação; e dificuldade de adaptação diante da materialização do risco.

4A partir da crise monopolista que começa a mostrar sinais de recessão generalizada em 1974-1975, o capital monopolista busca saídas para a substituição do padrão de acumulação “fordista-keneysiano” por um outro padrão de acumulação, “flexível”, que implica, necessariamente, um correspondente modo de regulamentação, este entendido como ação interventiva do Estado. Também o Estado experimenta um considerável redimensionamento cuja mudança mais visível é o “encolhimento” de sua ação reguladora. Esta redução do Estado correspondente às exigências do novo padrão de acumulação flexibilizado. Anderson (1996) ao analisar esta redução como uma característica do neoliberalismo a classifica como “uma relação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar”. É, portanto, no bojo de profundas modificações econômicas, políticas e culturais que se situa a chamada crise do Estado-Nação.

5O termo “Terceiro Mundo” foi oficialmente adotado pela primeira vez durante a reunião de países asiáticos e africanos, em abril de 1955, na Conferência de Bandung, em Java, na Indonésia. Ele definia os países que se pretendiam não-alinhados às duas superpotências da época: EUA e URSS. Terceiro Mundo: fazem parte desse grupo os países que possuem economia subdesenvolvida ou em desenvolvimento, geralmente nações localizadas na América Latina, África e Ásia. O criador da expressão foi o economista francês Alfred Sauvy, a mesma foi emitida pela primeira vez no ano de 1952.

6Os efeitos nocivos para a saúde humana por conta das mudanças no ambiente são muitos e graves:  as mudanças climáticas; a acidificação dos oceanos; a degradação dos solos; a escassez de água; a sobre-exploração da pesca e a perda de biodiversidade;

7O Estado moderno, entendido como o Estado dotado de um poder próprio independente de quaisquer outros poderes, surge, então, na segunda metade do século XV na França, na Inglaterra e na Espanha. A primeira característica do Estado moderno se revela como sendo a autonomia, isto é, uma plena soberania do Estado, a qual não permite que sua autoridade dependa de nenhuma outra. A segunda característica, por sua vez, é a distinção entre o Estado e a sociedade civil, que se evidencia no século XVII, com a ascensão da burguesia na Inglaterra. O Estado, pois, se difere da sociedade civil, embora seja a expressão desta. Como terceira característica que diferencia o Estado moderno do modelo de Estado na Idade Média, apresenta-se o Estado medieval, que se caracteriza por ser propriedade do senhor, que é dono do território e de tudo que se encontra nele; no Estado moderno, ao contrário, existe uma identificação absoluta entre o Estado e o monarca, o qual representa a soberania estatal.

8Os padrões determinados pela sociedade de consumidores trazem impactos negativos ao ser humano enquanto ator social. Nesse sentido, por meio do método dedutivo e da técnica bibliográfica, discorre-se sobre o fato de o consumo ser um novo valor social e analisa-se quem seriam as vítimas colaterais da atual sociedade de consumo. Assim, ao verificar que as ações humanas estão sendo orientadas por mandamentos consumistas, reconhece-se a importância de uma educação para o consumo consciente e sustentável como pressuposto para aperfeiçoar um desenvolvimento humano mais responsável, pautado na igualdade e justiça social.